
Ficar sozinho não mata. Nunca matou. Os ancestrais viviam bem sozinhos há milênios. O mundo dizia que duraria só uns meses essa tal escuridão e ainda estamos em casa. Como pensar que não sobreviveríamos uns meses!? Os cientistas diziam que uma vacina chegaria logo e nem chegou. Fecharemos um ano enclausurados. Cada um teve sua casa. Casa de madeira. Casa de tijolo. Vielas, varandas apertadas, cantos sem janelas, barcos, árvores, pau a piques de todos os cantos da rosa dos ventos. Estivemos todos ali num pensamento ao redor do globo. Abrimos uma nova janela, para dentro. Descuidamos da gente. No início. Veio o autocuidado. Cuidamos da gente, mas tivemos tempo para tanta coisa. Foi bom e ainda é. Antes não acreditávamos ser possível. Esse ano criamos plantas, aguamos todos os dias. Os vasinhos cheios de dengue ganharam zelo. Aprendemos como é o podar e limpamos a casa. Toda. Nunca tínhamos podado nada na vida. Enchemos de lixo os corredores da casa, nunca separamos o essencial do dispensável. Os dias exaustivos de trabalho se acumulavam junto na pilha de roupas, dos pijamas sujos, das camisetas largas do namorado. A música entrou nas nossas casas e trouxe tanta paz! Colecionamos arte, recortes e mãos sujas de terra. Recebemos cada lua como um novo ciclo. A cada semana seu planeta cintilante acordava feliz. Em busca de mais uma esperança, de um sorriso ou ligação. De um cheirinho de mar bem distante, do seu irmão tão distante. Da saudade de longe que chega nos ouvidos e traz um cadinho de amor. Do cheiro do café da manhã e a tapioca moída na varanda dos seus avós. Teve um quintal cheio de folhas secas em nosso junho. Teve flor, fruto e caule molhado nas águas de março. Março foi um ano inteiro e nesse dezembro em um dia só Júpiter e Saturno fazem a dança nos céus. Seus amigos adotaram bichos. Uns perderam elos queridos. Mas os pássaros e micos da janela não incomodavam mais! Eram a companhia na hora certa. Saboreamos cada uva de cada rolha aberta. Juntamos os cascos que tínhamos por debaixo do tapete. Já nem sabemos se os cascos eram de nós, do descascar dos troncos, das taças. Dos cacos do fim da gente. Um mundo se juntou quantas vezes para celebrar o nome igualdade. Marchamos, erguemos bandeiras. Vivemos de lugares imaginados, dos luares e pesares deixados pra trás. O vizinho começou a te dar oi, colegas dispensáveis nunca mais vieram. Filtramos tudo em filtros dos sonhos. Sonho do que vem, realidade do que fica. Num suspiro doce deixamos a boca meio entreaberta pra ver se chega amor num solstício de verão. Mas nunca foi fácil. E ficar sozinho não mata. A cada dia de dois mil e vinte. Ele, ele te fortaleceu.
*Os tópicos do texto acima foram abordados no #CMEncontros que tivemos agora dia 18 de dezembro no Creative Mornings RIO. Ficar sozinho, autocuidado, conhecimento, aceitação, consciência e gratidão surgiram tão organicamente, neste bate-papo para fechar a semana, e o ano! Viva a vida. Nosso capítulo #CreativeMornings Düsseldorf escolheu explorar “Biophilia” neste mês, Lara Paulussen ilustrou o tema e Skillshare, nosso novo Apoiador Global, apresenta o tema globalmente.
Texto por Rhaissa V.
Dialética, TOC, disléxica, fotofobia leve. Ama wasabi, gengibre e rapé Huni Kuin. Binária cis de gênero não-conformista. Publicitária formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ex Netflix. Hoje é meio nômade digital meio grudada na selva de pedra São Paulo.